Nos últimos 25 anos, o setor imobiliário transformou-se profundamente. Da digitalização ao foco crescente na sustentabilidade, passando por novas exigências habitacionais e alterações estruturais no perfil dos compradores, este primeiro quarto de século ficou marcado por ciclos económicos contrastantes, mas também por uma evolução tecnológica e cultural sem precedentes. Olhar para este percurso permite compreender o presente e antecipar com mais clareza os caminhos que o mercado seguirá nos próximos 25 anos.
uma transformação sem precedentes: 2000 a 2025
Da crise à recuperação
O início do século XXI ficou marcado por uma fase de crescimento acelerado nos mercados imobiliários, impulsionado por crédito acessível e uma expansão económica. Este ciclo terminou abruptamente com a crise financeira de 2008, que teve consequências em cadeia à escala mundial. Seguiu-se um período de correção em que os preços caíram, a confiança foi abalada e o crédito restringido.
A recuperação iniciou-se de forma gradual a partir de 2010, com políticas monetárias expansionistas e taxas de juro historicamente baixas. Esta conjuntura favoreceu o regresso do investimento ao setor imobiliário, especialmente em mercados urbanos dinâmicos e em destinos com potencial turístico. A pandemia de COVID-19, longe de travar esta evolução, serviu como catalisador de novas exigências habitacionais: mais espaço, maior contacto com o exterior e capacidade de adaptação ao teletrabalho.
Digitalização, sustentabilidade e mudança nos estilos de vida
Entre 2010 e 2025, é impossível falar do setor imobiliário sem falar de três tendências que se tornaram estruturais. A digitalização alterou os processos de mediação, com a generalização das visitas virtuais, da gestão documental digital e da assinatura eletrónica. Do ponto de vista dos profissionais, o recurso a plataformas de CRM e de gestão digital de processos melhorou a eficiência e a qualidade do serviço. Em paralelo, a sustentabilidade ganhou protagonismo e o mercado passou a valorizar crescentemente a eficiência energética, a redução da pegada de carbono e as certificações ambientais. Também as preferências habitacionais evoluíram: a procura afastou-se dos centros urbanos mais congestionados e passou a privilegiar o conforto, a flexibilidade dos espaços e a qualidade de vida, associando a descentralização a um novo ideal de bem-estar.
Portugal no radar internacional
Portugal consolidou-se como um dos mercados imobiliários mais atrativos da Europa. Entre 2017 e 2024, registou-se uma forte valorização dos ativos, em virtude da estabilidade política, do regime fiscal favorável, da segurança e da qualidade de vida. O investimento internacional desempenhou um papel essencial neste crescimento, sobretudo nos segmentos médio-alto e de luxo. Localizações como Lisboa, Cascais, Comporta, Porto e Algarve tornaram-se verdadeiros hotspots para compradores estrangeiros. Mas zonas emergentes como a Costa Vicentina ou o interior alentejano começaram também a ganhar destaque, fruto da envolvente natural e cultural, bem como do potencial de valorização.
OLHAR PARA OS PRÓXIMOS 25ANOS
Reconfiguração do território urbano
A descentralização urbana deverá intensificar-se nas próximas décadas. Os grandes centros urbanos, como as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, mantêm níveis elevados de densificação e de preços, pelo que outras regiões com menor densidade, boa acessibilidade e qualidade ambiental tornam-se alternativas viáveis para a habitação e para o investimento. Esta mudança estrutural poderá reforçar o desenvolvimento de novas centralidades, com impacto direto na valorização de territórios até aqui subaproveitados.
Inteligência artificial e automação no setor
A próxima fase da digitalização será marcada pela integração, a todo o vapor, da inteligência artificial na mediação imobiliária. A avaliação de imóveis, o acompanhamento das dinâmicas de mercado, as funções de consultoria e a experiência dos clientes continuarão a ser otimizadas com recurso a ferramentas inteligentes, capazes de cruzar grandes volumes de dados em tempo real.
Sustentabilidade como novo standard
A sustentabilidade deverá deixar de ser, cada vez mais, uma vantagem para se afirmar como uma exigência transversal. A construção ecológica, os materiais de baixo impacto ambiental, os edifícios com alta eficiência energética e os projetos com integração ambiental serão cada vez mais a norma. Deveremos também esperar uma regulação mais exigente, além de políticas públicas que privilegiem esta transição.
Novas dinâmicas na procura
As preferências das novas gerações de compradores, millenials e Gen Z, terão inevitavelmente impacto na oferta. Além de uma abordagem ponderada, o mercado deve ter em conta os aspetos que estes clientes valorizam num imóvel. Características como a funcionalidade, a flexibilidade dos espaços e a acessibilidade deverão continuar a superar exigências antigas como o espaço ou o prestígio da localização.
Um setor em redefinição
Não é fácil prever a realidade dos próximos 25 anos, mas é legítimo perspetivar décadas marcadas pela aceleração de tendências que o mercado vive atualmente. Num setor com desafios claros, a capacidade de antecipar tendências e de responder com soluções inteligentes será fundamental para construir valor de forma sustentada.
